{"id":393,"date":"2010-12-16T08:50:33","date_gmt":"2010-12-16T11:50:33","guid":{"rendered":"http:\/\/www.foxnet.com.br\/portal3\/?p=393"},"modified":"2019-01-16T16:38:11","modified_gmt":"2019-01-16T19:38:11","slug":"celulas-tronco-teriam-curado-paciente-com-hiv","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.foxnet.com.br\/portal3\/?p=393","title":{"rendered":"C\u00e9lulas tronco teriam curado paciente com HIV"},"content":{"rendered":"<p>M\u00e9dicos anunciam que paciente com HIV est\u00e1 livre da infec\u00e7\u00e3o gra\u00e7as a um complexo tratamento que incluiu o transplante de c\u00e9lulas tronco resistentes ao v\u00edrus.<\/p>\n<p>O americano Timothy Ray Brown, que mora na Alemanha, est\u00e1 sendo chamado de \u201cpaciente de Berlim\u201d ap\u00f3s passar tr\u00eas anos livre do v\u00edrus causador da AIDS em seu corpo.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">\n<p>Seu caso raro \u00e9 resultado de uma s\u00e9rie de coincid\u00eancias que o levaram a ser submetido a diversos procedimentos. Em 2007, Brown, que era soropositivo, foi diagnosticado com leucemia e recebeu, pela equipe do Dr Gero H\u00fctter, da Universidade M\u00e9dica de Berlim, um transplante de medula.<\/p>\n<p>O material doado, no entanto, possu\u00eda uma particularidade: ele vinha de um indiv\u00edduo que tinha uma resist\u00eancia natural ao HIV. Geneticamente, o doador n\u00e3o possu\u00eda em suas c\u00e9lulas um receptor chamado CCR5.\u00a0 Acontece que a variedade mais comum de HIV usa justamente o CCR5 como \u201cesta\u00e7\u00e3o\u201d para se ligar e atacar as c\u00e9lulas brancas CD4, um tipo de c\u00e9lula do sistema imunol\u00f3gico. Como todo v\u00edrus, o HIV n\u00e3o \u00e9 capaz de se reproduzir sozinho: ele usa o material gen\u00e9tico de um indiv\u00edduo (no caso, das c\u00e9lulas brancas) para se replicar. Assim, as pessoas com essa muta\u00e7\u00e3o est\u00e3o praticamente a salvo da infec\u00e7\u00e3o. Apesar de ser a porta de entrada, a CCR5 n\u00e3o \u00e9 o \u00fanico caminho: com o tempo, durante a infec\u00e7\u00e3o, surgem outros tipos de v\u00edrus que podem usar outros receptores, como o CXCR4.<\/p>\n<p>O caso de Brown foi apresentado pela primeira vez em 2008, em Boston, durante a Confer\u00eancia sobre Retrov\u00edrus e Infec\u00e7\u00f5es Oportunistas. Em fevereiro de 2009, os resultados foram publicados no New England Journal of Medicine. Agora, um novo trabalho foi publicado na revista Blood, argumentando que, baseado em uma s\u00e9rie de testes, \u201c\u00e9 poss\u00edvel concluir que a cura da infec\u00e7\u00e3o por HIV foi alcan\u00e7ada neste paciente\u201d.<\/p>\n<p><strong>Quimioterapia, imunossupressores, antiretrovirais e c\u00e9lulas tronco<\/strong><\/p>\n<p>O caminho para a cura, no entanto, n\u00e3o foi f\u00e1cil. Ap\u00f3s o transplante de medula em 2007, Brown teve uma reca\u00edda e precisou do transplante de c\u00e9lulas tronco.<\/p>\n<p>Estas c\u00e9lulas foram selecionadas de um indiv\u00edduo que possu\u00eda um perfil gen\u00e9tico diferente: uma muta\u00e7\u00e3o herdada de seus dois pais que resultava em c\u00e9lulas CD4 que careciam dos receptores CCR5.<\/p>\n<p>Antes do transplante, o paciente recebeu quimioterapia, que destruiu a maioria das c\u00e9lulas de seu sistema imunol\u00f3gico. Ele tamb\u00e9m recebeu drogas imunossupressoras para prevenir a rejei\u00e7\u00e3o. No dia do transplante, Brown interrompeu a terapia antiretroviral \u2013 ou seja, parou de tomar os coquet\u00e9is contra HIV. 13 dias ap\u00f3s o 1\u00ba transplante de c\u00e9lulas tronco, ele precisou receber um segundo transplante, devido a complica\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Nos 38 meses que se seguiram, o paciente de Berlim continuou recebendo tratamento imunossupressor para prevenir rejei\u00e7\u00f5es. Nos meses 5, 24 e 29 foram feitos testes para verificar a presen\u00e7a do HIV nas c\u00e9lulas da parede intestinal. O que os pesquisadores notaram \u00e9 que as c\u00e9lulas CD4 novas, feitas a partir do material gen\u00e9tico das c\u00e9lulas tronco do doador, passaram a substituir as antigas c\u00e9lulas CD4 do paciente.<\/p>\n<p>Decorridos 17 meses do transplante, o paciente desenvolveu uma condi\u00e7\u00e3o neurol\u00f3gica que exigiu uma bi\u00f3psia no c\u00e9rebro e a retirada de amostras do flu\u00eddo da espinha. Em nenhum destes materiais foi encontrado vest\u00edgio do HIV.<\/p>\n<p>H\u00e1 ainda mais uma indica\u00e7\u00e3o de que o v\u00edrus n\u00e3o estava mais presente em Brown. Ap\u00f3s o transplante, todas as suas c\u00e9lulas CD4 tinham as caracter\u00edsticas de seu doador, e n\u00e3o apresentavam o receptor CCR5. No entanto, mesmo estas \u201cnovas c\u00e9lulas\u201d, produzidas ap\u00f3s o transplante, continuam suscet\u00edveis a infec\u00e7\u00f5es por meio do receptor CXCR4. Assim, qualquer v\u00edrus capaz de entrar por esta \u201cporta\u201d j\u00e1 teria se replicado \u2013 o que n\u00e3o aconteceu.<\/p>\n<p><strong>Cura?<\/strong><\/p>\n<p>Um dos desafios no tratamento do HIV \u00e9 justamente o fato de o v\u00edrus atacar as c\u00e9lulas do sistema imunol\u00f3gico, que vivem relativamente muito tempo. Para curar algu\u00e9m, seria preciso retirar todas essas c\u00e9lulas de um paciente. Acontece que as c\u00e9lulas brancas protegem o corpo de infec\u00e7\u00f5es, c\u00e2ncer e outras doen\u00e7as. Sem elas, ficamos desprotegidos \u2013 o que, ali\u00e1s, \u00e9 a causa da morte dos pacientes que desenvolvem AIDS. O HIV ataca as c\u00e9lulas do sistema imunol\u00f3gico e o paciente acaba morrendo das chamadas doen\u00e7as oportunistas \u2013 que s\u00f3 se desenvolvem porque o organismo est\u00e1 muito fraco para combat\u00ea-las.<\/p>\n<p>No caso do paciente de Berlim, as c\u00e9lulas com o receptor CCR5 (ou seja, as c\u00e9lulas que ele possu\u00eda antes do transplante) n\u00e3o foram detectadas 38 meses ap\u00f3s o tratamento. Isso sugere que a quimioterapia as destruiu, e que elas forma substitu\u00eddas pelas c\u00e9lulas CD4 com material do doador.<\/p>\n<p>Outro fato importante: o paciente n\u00e3o retomou a terapia antiretroviral. Ainda assim, mesmo sem os coquet\u00e9is, o HIV n\u00e3o foi detectado em suas c\u00e9lulas.<\/p>\n<p>O caso de Timothy Brown aponta a engenharia gen\u00e9tica e as c\u00e9lulas tronco como novos caminhos para a cura do HIV. Pode-se, por exemplo, pensar em material elaborado em laborat\u00f3rio para se adequar as condi\u00e7\u00f5es de cada paciente, o que eliminaria a necessidade e o desgaste de encontrar um doador compat\u00edvel.<\/p>\n<p>Ainda assim, a cura do paciente de Berlim n\u00e3o veio de forma f\u00e1cil. Quimioterapia, imunossupressores e um transplante de c\u00e9lulas tronco s\u00e3o etapas muito pesadas e desgastantes. Elas apontam um caminho, mas n\u00e3o podem, do jeito que foram feitas, ser consideradas uma solu\u00e7\u00e3o.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>M\u00e9dicos anunciam que paciente com HIV est\u00e1 livre da infec\u00e7\u00e3o gra\u00e7as a um complexo tratamento que incluiu o transplante de c\u00e9lulas tronco resistentes ao v\u00edrus. O americano Timothy Ray Brown, que mora na Alemanha, est\u00e1 sendo chamado de \u201cpaciente de Berlim\u201d ap\u00f3s passar tr\u00eas anos livre do v\u00edrus causador da AIDS em seu corpo. 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