{"id":175,"date":"2010-07-07T10:54:25","date_gmt":"2010-07-07T13:54:25","guid":{"rendered":"http:\/\/www.foxnet.com.br\/portal2\/?p=175"},"modified":"2010-07-07T10:54:25","modified_gmt":"2010-07-07T13:54:25","slug":"o-fim-do-conhecimento","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.foxnet.com.br\/portal3\/?p=175","title":{"rendered":"O fim do conhecimento"},"content":{"rendered":"<p><em>Atom Simonite e Michael Le Page, da New Scientist<\/em><\/p>\n<p>Armazenamos nossos dados em formatos digitais cada vez mais fr\u00e1geis e ef\u00eameros. Se a energia acabar, podemos perder grande parte deles.<\/p>\n<p>No 15\u00ba dia do m\u00eas XI, V\u00eanus desapareceu no oeste, e por tr\u00eas dias ficou longe no c\u00e9u. No 18\u00ba dia do m\u00eas XI, V\u00eanus tornou- se vis\u00edvel no leste.\u201d O que \u00e9 not\u00e1vel sobre estas observa\u00e7\u00f5es de V\u00eanus \u00e9 que elas foram feitas cerca de 3 500 anos atr\u00e1s, por astr\u00f3logos da Babil\u00f4nia. N\u00f3s as conhecemos porque uma t\u00e1bua de argila com essas observa\u00e7\u00f5es, conhecida como a T\u00e1bua de V\u00eanus de Ammisaduqa, foi feita 1 000 anos mais tarde e sobreviveu desde ent\u00e3o praticamente intacta. Hoje, ela pode ser vista no Museu Brit\u00e2nico, em Londres.<\/p>\n<p>N\u00f3s, \u00e9 claro, temos conhecimentos jamais sonhados pelos babil\u00f4nios. N\u00e3o nos limitamos a observar V\u00eanus de longe, enviamos naves at\u00e9 l\u00e1. Nossos astr\u00f4nomos agora observam planetas que orbitam s\u00f3is alien\u00edgenas e desafiam limites do tempo e do espa\u00e7o, voltando at\u00e9 mesmo ao in\u00edcio do pr\u00f3prio universo. Nossos industriais est\u00e3o transformando areia e \u00f3leo em m\u00e1quinas cada vez menores e mais sofisticadas, uma forma de alquimia mais maravilhosa do que qualquer alquimista jamais sonhou. Nossos bi\u00f3logos est\u00e3o experimentando com receitas para a pr\u00f3pria vida, ganhando poderes antes atribu\u00eddos somente aos deuses. No entanto, \u00e0 medida que adquirimos conhecimentos cada vez mais extraordin\u00e1rios, tamb\u00e9m os armazenamos em formas cada vez mais fr\u00e1geis e ef\u00eameras. Se nossa civiliza\u00e7\u00e3o se encontrasse em apuros, como todas as outras que vieram antes, quanto disso tudo iria sobreviver? Evidentemente, se depar\u00e1ssemos com uma cat\u00e1strofe que acabasse com todos os seres humanos, como um gigantesco asteroide, isso seria irrelevante. Mesmo se outra esp\u00e9cie inteligente evolu\u00edsse na Terra, quase todos os outros tra\u00e7os da humanidade teriam desaparecido h\u00e1 muito tempo.<\/p>\n<p>Vamos supor, no entanto, um evento menos catacl\u00edsmico, em que muitos edif\u00edcios permanecessem intactos e um n\u00famero suficiente de pessoas sobrevivesse para reconstruir a civiliza\u00e7\u00e3o depois de algumas d\u00e9cadas ou s\u00e9culos. Suponha, por exemplo, que o sistema financeiro global desmorone, ou um novo v\u00edrus mate a maioria da popula\u00e7\u00e3o do mundo, ou uma tempestade solar destrua a rede de energia da Am\u00e9rica do Norte. Ou suponha que haja um decl\u00ednio lento decorrente de um aumento brusco nos custos de energia, agravado por desastres ambientais. A crescente complexidade e interdepend\u00eancia das sociedades est\u00e1 tornando as civiliza\u00e7\u00f5es cada vez mais vulner\u00e1veis a tais eventos.<\/p>\n<p><strong>Ingrediente secreto<\/strong><\/p>\n<p>Seja qual for a causa, se a energia dos computadores que armazenam a maior parte do conhecimento da humanidade hoje fosse cortada, e se as pessoas parassem de cuidar deles e dos edif\u00edcios em que eles est\u00e3o abrigados, e se as f\u00e1bricas deixassem de produzir novos chips e discos, por quanto tempo todo o nosso conhecimento sobreviveria? Quanta informa\u00e7\u00e3o os sobreviventes de um desastre como esse seriam capazes de recuperar, d\u00e9cadas ou s\u00e9culos depois? Mesmo na aus\u00eancia de qualquer cat\u00e1strofe, a perda de conhecimento j\u00e1 \u00e9 um problema. Estamos gerando mais informa\u00e7\u00f5es do que nunca, e armazenando-as em meios cada vez mais transit\u00f3rios. Muito do que est\u00e1 sendo perdido n\u00e3o chega a ser essencial \u2014 as gera\u00e7\u00f5es futuras provavelmente v\u00e3o sobreviver sem as fotos e v\u00eddeos que voc\u00ea perdeu quando seu disco r\u00edgido morreu \u2014, mas uma parte \u00e9. Em 2008, por exemplo, verificou-se que os Estados Unidos tinham \u201cesquecido\u201d como fazer um ingrediente secreto das ogivas nucleares chamadas Fogbank. Registros adequados n\u00e3o haviam sido mantidos e todo o pessoal chave se aposentou ou deixou a ag\u00eancia respons\u00e1vel. O fiasco acabou acrescentando 69 milh\u00f5es de d\u00f3lares ao custo do programa de renova\u00e7\u00e3o da ogiva.<\/p>\n<p>Se ficarmos sem energia por um per\u00edodo prolongado, o legado da humanidade depender\u00e1 em grande parte do disco r\u00edgido, a tecnologia que funciona como mem\u00f3ria funcional de nossa sociedade. Tudo est\u00e1 nos discos r\u00edgidos, em geral localizados em salas cheias de servidores conhecidas como data centers. Os discos r\u00edgidos nunca foram destinados ao armazenamento de longo prazo, portanto n\u00e3o s\u00e3o submetidos aos testes usados para estimar a vida \u00fatil de formatos como o CD. Ningu\u00e9m tem certeza de quanto tempo eles v\u00e3o durar. Kevin Murrell, do museu nacional da computa\u00e7\u00e3o, no Reino Unido, ligou recentemente um disco r\u00edgido de 456 megabytes que tinha sido desativado desde o in\u00edcio de 1980. \u201cN\u00e3o tivemos nenhum problema para extrair os dados dele\u201d, diz.<\/p>\n<p>Os discos modernos podem n\u00e3o se sair t\u00e3o bem, no entanto. A densidade de armazenamento em discos r\u00edgidos hoje \u00e9 de mais de 200 gigabits por polegada quadrada, e continua subindo r\u00e1pido. Embora hoje os discos tenham sistemas sofisticados para compensar falhas em pequenos setores, em geral quanto mais dados voc\u00ea armazena num material, mais voc\u00ea perde quando partes dele s\u00e3o degradadas ou danificadas. \u201cOs discos modernos ainda est\u00e3o em julgamento. S\u00f3 saberemos daqui a 20 anos\u201d, diz Murrell.<\/p>\n<p>A maioria dos dados importantes \u00e9 salva como backup em formatos como fitas magn\u00e9ticas ou discos \u00f3pticos. Infelizmente, muitos desses formatos n\u00e3o duram nem cinco anos, diz Joe Iraci, que estuda a confiabilidade da m\u00eddia digital no Canadian Conservation Institute, em Ottawa, Ont\u00e1rio. Os testes de \u201cenvelhecimento acelerado\u201d de Iraci, que normalmente envolvem a exposi\u00e7\u00e3o da m\u00eddia a calor e alta umidade, mostram que a m\u00eddia mais est\u00e1vel \u00e9 o CD grav\u00e1vel com uma camada reflexiva de ouro e uma camada de tintura ftalocianina. \u201cSe voc\u00ea usar esse disco e grav\u00e1-lo bem, acho que poderia durar mais de 100 anos\u201d, diz ele. \u201cSe optar por outra m\u00eddia, provavelmente est\u00e1 olhando para uma janela de cinco a dez anos.\u201d<\/p>\n<p>O drives de mem\u00f3ria flash, que s\u00e3o cada vez mais comuns, s\u00e3o ainda menos resistentes que os discos r\u00edgidos. N\u00e3o est\u00e1 claro por quanto tempo eles preservam os dados, mas um fabricante adverte os usu\u00e1rios a n\u00e3o confiar neles para mais de dez anos. E, embora algumas tecnologias de mem\u00f3ria possam ser mais est\u00e1veis que a mem\u00f3ria flash, o foco est\u00e1 no aumento da velocidade e da capacidade, e n\u00e3o na estabilidade.<\/p>\n<p>Naturalmente, as condi\u00e7\u00f5es em que a m\u00eddia \u00e9 armazenada podem ser muito mais importantes do que sua estabilidade inerente: unidades guardadas em locais secos e frescos v\u00e3o durar muito mais que aquelas expostas ao calor e \u00e0 umidade. No entanto, poucos data centers s\u00e3o projetados para manter essas condi\u00e7\u00f5es por muito tempo se a energia for cortada.<\/p>\n<p><strong>Fitas com lagarto<\/strong><\/p>\n<p>A sobreviv\u00eancia f\u00edsica dos dados, no entanto, \u00e9 apenas o in\u00edcio da saga para recuper\u00e1-los, como os entusiastas da explora\u00e7\u00e3o espacial Dennis Wingo e Cowing Keith descobriram. Eles lideram um projeto baseado no Ames Research Center da NASA, em Moffett Field, Calif\u00f3rnia, para obter imagens de alta resolu\u00e7\u00e3o de antigas fitas magn\u00e9ticas. As fitas cont\u00eam dados brutos enviados para a Terra pelas cinco miss\u00f5es Lunar Orbiter em 1960. Na \u00e9poca, apenas imagens de baixa resolu\u00e7\u00e3o podiam ser retiradas. As fitas foram embaladas em pl\u00e1stico, colocadas em caixas met\u00e1licas magneticamente imperme\u00e1veis e permanecem em bom estado. Mas, para obter os dados brutos, a equipe teve de recuperar antigos drives de fita guardados por um ex-funcion\u00e1rio da NASA. Esse foi o maior desafio, diz Cowing. \u201cHavia um lagarto vivendo dentro de um deles.\u201d Depois de recuperar os dados brutos, s\u00f3 foi poss\u00edvel convert\u00ea-los a uma forma utiliz\u00e1vel ap\u00f3s uma busca de tr\u00eas meses para descobrir um documento com as equa\u00e7\u00f5es de \u201cdemodula\u00e7\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p>Se hoje \u00e9 preciso um grupo de entusiastas com recursos financeiros abundantes e muitos meses para recuperar os dados de algumas fitas magn\u00e9ticas bem preservadas, imaginem as dificuldades que os sobreviventes do p\u00f3s-cat\u00e1strofe enfrentariam. Muitos dados hoje em dia s\u00e3o criptografados ou leg\u00edveis apenas usando um software especial. E num data center que ficasse intocado por 20 ou 30 anos, alguns drives teriam de ser desmontados para recuperar seus dados, diz Robert Winter, engenheiro s\u00eanior da Kroll Ontrack Data Recovery em Epsom, Surrey, Reino Unido, que em 2003 resgatou os dados em um disco r\u00edgido do \u00f4nibus espacial Columbia.<\/p>\n<p>No p\u00f3s-cat\u00e1strofe, a falta de recursos \u2014 de pessoas, compet\u00eancias, equipamentos \u2014 pode ser um obst\u00e1culo muito maior do que a perda f\u00edsica de dados. Mas ser\u00e1 que a perda da maior parte dos dados armazenados em discos r\u00edgidos realmente importa? Afinal, muito do que herdamos de civiliza\u00e7\u00f5es do passado \u00e9 de pouca utilidade pr\u00e1tica: a T\u00e1bua de V\u00eanus de Ammisaduqa, por exemplo, em grande parte cont\u00e9m apenas bobagens astrol\u00f3gicas. Da mesma forma, uma consider\u00e1vel parcela do que enche os servidores hoje tamb\u00e9m parece dispens\u00e1vel.<\/p>\n<p>Mesmo o valor de muitos dados cient\u00edficos \u00e9 question\u00e1vel. De que adiantaria conhecer a sequ\u00eancia do genoma de humanos e outros organismos, por exemplo, sem a tecnologia e as habilidades necess\u00e1rias para explorar esse conhecimento? Com alguns experimentos cient\u00edficos atuais gerando petabytes de dados, preservar tudo j\u00e1 est\u00e1 se tornando um grande desafio. A vasta quantidade de material ser\u00e1 um problema para qualquer um que tente recuperar o que eles t\u00eam de importante: embora seja f\u00e1cil encontrar um livro numa biblioteca, n\u00e3o h\u00e1 como ter certeza do que est\u00e1 num disco r\u00edgido sem navegar por ele.<\/p>\n<p>Al\u00e9m do mais, aquilo que sobrevive por mais tempo n\u00e3o \u00e9 necessariamente o mais importante. Quanto mais c\u00f3pias h\u00e1 de um conjunto de dados, maiores as suas chances de sobreviv\u00eancia, descoberta e recupera\u00e7\u00e3o. Alguns dados s\u00e3o muito copiados porque s\u00e3o \u00fateis, como sistemas operacionais, mas na maioria das vezes o crit\u00e9rio \u00e9 a popularidade. Isso significa que as vers\u00f5es digitais de m\u00fasicas populares podem sobreviver muitas d\u00e9cadas: ou seja, o Abba pode chegar ao topo das paradas de sucesso no s\u00e9culo 22, novamente. No entanto, h\u00e1 muito menos c\u00f3pias de livros e manuais e plantas contendo o conhecimento especializado que pode ser mais importante para quem estiver tentando reconstruir a civiliza\u00e7\u00e3o, como t\u00e9cnicas para manipular o ferro ou produzir antibi\u00f3ticos.<\/p>\n<p>Talvez a perda mais importante ocorra depois de meio s\u00e9culo, quando engenheiros, cientistas e m\u00e9dicos sobreviventes come\u00e7arem a sucumbir \u00e0 velhice. Suas compet\u00eancias e conhecimentos fariam toda a diferen\u00e7a na hora de encontrar informa\u00e7\u00f5es importantes e colocar m\u00e1quinas-chave para trabalhar novamente. As fitas da NASA, por exemplo, foram restauradas com a ajuda de um engenheiro aposentado que trabalhara em sistemas semelhantes.<\/p>\n<p><strong>A for\u00e7a do papel<\/strong><\/p>\n<p>Um s\u00e9culo depois de uma grande cat\u00e1strofe, pouco da era digital sobreviveria al\u00e9m do que est\u00e1 escrito em papel. \u201cMesmo o pior tipo de papel pode durar mais de 100 anos\u201d, diz Season Tse, que trabalha com conserva\u00e7\u00e3o de papel no Canadian Conservation Institute. O mais antigo livro em papel data do ano 868 d.C., diz ele. O item foi encontrado numa caverna no noroeste da China, em 1907. Desde que os livros n\u00e3o sejam utilizados como combust\u00edvel, ou como papel higi\u00eanico, eles v\u00e3o durar centenas de anos, fr\u00e1geis e desbotados, mas leg\u00edveis. Novamente, por\u00e9m, os volumes mais populares t\u00eam mais chances de sobreviver. Imagine arriscar sua vida explorando ru\u00ednas perigosas em busca de sabedoria antiga s\u00f3 para encontrar uma pilha de revistas Playboy escondidas h\u00e1 muito tempo.<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 s\u00f3 o que sobrevive, mas as escolhas daqueles que vir\u00e3o depois que, em \u00faltima inst\u00e2ncia, decidem qual ser\u00e1 o legado de uma civiliza\u00e7\u00e3o. E aqueles que decidem s\u00e3o mais propensos a escolher o \u00fatil do que o trivial. Assim, a maioria dos nossos conhecimentos cient\u00edficos e tecnol\u00f3gicos pode ser redescoberta e reinventada, mais cedo ou mais tarde. Caso contr\u00e1rio, os maiores legados da nossa \u00e9poca podem ser best-sellers como Cita\u00e7\u00f5es do Presidente Mao e O Senhor dos An\u00e9is.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Armazenamos nossos dados em formatos digitais cada vez mais fr\u00e1geis e ef\u00eameros. 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